Ambiente e Saúde

Fortalecer a saúde na agenda ambiental e do desenvolvimento sustentável

 

O desenvolvimento sustentável sempre foi uma marca da Fiocruz, assumindo a perspectiva de construção de uma sociedade inclusiva, desenvolvida e ambientalmente justa no decorrer dos séculos XX e XXI. A busca de conhecimento para enfrentar doenças nos sertões do Brasil, a instalação de um campus que permanece como área preservada no subúrbio da cidade, a participação na Rio 92 e na Rio + 20, lutando, junto aos movimentos sociais, por uma agenda que inclua a saúde como valor e direito humano, são exemplos da trajetória da instituição na consolidação de um Estado nacional com cidadania plena.

Nossa posição como Centro Colaborador da Organização Mundial da Saúde (OMS) e como principal colaborador do Ministério da Saúde na área de saúde ambiental e saúde do trabalhador traz inúmeras responsabilidades e tem demonstrado o acerto de priorizarmos esse campo de conhecimento na realização de concursos, apoio à criação de novas linhas de pesquisa e de ensino, bem como atuando em frentes de ação política, como no caso da luta pela redução do uso de agrotóxicos, no caso TKCSA, no desastre do Vale do Rio Doce e em tantas outras iniciativas de cooperação.

Mas a crise global, que se expressa no cotidiano de vulnerabilidade climática, perda de biodiversidade, impactos dos empreendimentos sobre a vida das comunidades e os conflitos ambientais daí resultantes, requer o estabelecimento de redes fortalecidas para a atuação firme em políticas mais efetivas que incidam sobre a qualidade de vida das pessoas e do ambiente. A contribuição da Fiocruz deverá passar pela reafirmação de uma visão de futuro que mantenha a instituição na vanguarda do debate sobre desenvolvimento sustentável, no Brasil e no mundo.

Da mesma forma, é preciso assumir a promoção da saúde como diretiva central para as políticas que se refiram à alimentação saudável, ao estímulo à prática esportiva, à abolição do uso de tabaco, à prevenção do uso prejudicial de álcool e de outras drogas. Essas e outras práticas dirigidas aos hábitos de vida, além das ações coletivas na prevenção de acidentes, no estabelecimento de boas condições de trabalho e de vida de forma geral e na garantia de acessibilidade e cidadania das pessoas com deficiência se constituem como um mantra a ser reafirmado todo o tempo junto às instâncias de gestão interna e nas das políticas públicas nacionais.

Da mesma forma, deveremos criar condições para sermos exemplo de organização do setor público que prime por práticas internas nessa direção. Nesse sentido, é fundamental o fortalecimento do programa Fiocruz Saudável, aprofundando as práticas de uso racional de energia, reciclagem de materiais, redução de descartáveis, reúso da água e preservação das áreas verdes, entre outras a serem debatidas, além das que se dirijam à biossegurança e à saúde do trabalhador.

Nossos campi em todo o país precisam agregar uma visão ecossistêmica, revendo práticas e repensando todos os processos a partir da redução dos impactos ambientais. Cada adequação física ou mudanças de processo de trabalho deve ser avaliada tendo essa perspectiva, como foi feito com a implantação do transporte coletivo e da carona solidária, que proporcionaram impactos importantes na qualidade de vida e no ambiente interno. Mas ainda há muito a fazer em relação ao tratamento de resíduos e à preservação de áreas verdes, necessitando maior integração e desenvolvimento de mecanismos de gestão que favoreçam a efetividade das iniciativas. O fundamental para isso será tornar esse processo amplamente participativo, mobilizando consciências entre gestores, servidores, colaboradores, estudantes e usuários da instituição.

Cabe destacar a importância de atuação da Fiocruz além de seus muros, em particular no seu entorno. Nesse sentido, há de se lembrar as iniciativas desenvolvidas pela Cooperação Social, de implementação de metodologias voltadas para governança territorial democrática em Manguinhos. Essa construção vem sendo trabalhada através do apoio e estímulo à atuação em rede nesse território, por meio de instâncias como o Conselho Comunitário, a Agência de Comunicação de Manguinhos, a Comissão contra a Violência, o Conselho Gestor Intersetorial de Teias Escola Manguinhos (CGI), a Rede de Controle do Aedes em Manguinhos e a Geração de Trabalho e Renda, que envolve acordo de cooperação técnica e financeira entre BNDES, Fiocruz e Fiotec.

Nosso posicionamento é em defesa do aprofundarmos a participação de todos e do alinhamento da agenda de colaborações externas com as práticas internas e, principalmente, de tratar o tema como necessidade para a sobrevivência humana no médio e no longo prazo e a garantia de qualidade de vida no cotidiano da vida institucional.

 

Destacamos, assim, quatro elementos a serem considerados para fortalecer a saúde na agenda ambiental e do desenvolvimento sustentável.

# Desenvolver o tema a partir de uma abordagem multissetorial e multidisciplinar na formulação, implementação e avaliação de políticas públicas.

# Fomentar espaços de debate e de participação dos trabalhadores na formulação e execução de iniciativas sustentáveis.

# Aprimorar os processos internos de sustentabilidade.

# Tratar a Agenda 2030 dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável de forma estruturante e transversal para os eixos estratégicos do planejamento institucional.

 

PROPOSTAS:

 

1.      Estabelecer cooperações técnicas com instituições estratégicas nacionais e internacionais, como o CNPq, a Capes, o BNDES e as agências da ONU, entre outras, visando a formulação de análises de longo prazo de políticas públicas que contribuam com a sustentabilidade.

2.      Desenvolver linhas específicas de apoio à inovação no desenvolvimento de tecnologias sociais sustentáveis, que priorizem soluções de problemas identificados em parcerias com organizações da sociedade civil.

3.      Desenvolver plataformas que possibilitem a interoperabilidade dos dispositivos institucionais de saúde, ambiente e sustentabilidade, como observatórios, centros de estudos, aplicativos e sistemas usados em pesquisas e cooperações.

4.      Instituir a sustentabilidade como eixo estratégico e orientador do Programa Fiocruz Saudável, definindo os objetivos afins a nossa instituição, acoplando mecanismos de acompanhamento e indução para a mudança.

5.      Implementar programa institucional para a promoção de territórios saudáveis e sustentáveis, em consonância com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas.

6.      Implementar o Programa Institucional da Fiocruz nas áreas de Violência e Saúde, para aprofundamento de práticas colaborativas entre projetos e ações da instituição de enfrentamento e prevenção das violências, em diálogo com a sociedade.

7.      Aprofundar a participação institucional cooperativa no Observatório da Sub-Bacia Hidrográfica do Canal do Cunha para a gestão ambiental participativa e redução do quadro de vulnerabilidade socioambiental do território.

8.      Ampliar a produção de tecnologias sociais que promovam diálogo entre saúde, território e arte na Fiocruz.

9.      Aprofundar o apoio institucional a espaços coletivos de participação social democrática, conselhos de saúde e à comunicação crítica em territórios urbanos e rurais em situação de extrema vulnerabilidade socioambiental.