Costumo dizer que a Fiocruz tem sido para mim uma grande escola profissional e de vida. Desde que ingressei na instituição, em 1987, na gestão de Sergio Arouca, venho exercendo atividades como pesquisadora, professora e gestora, descobrindo em cada momento novas possibilidades e novos desafios. Participei, ao lado de muitos colegas, de atividades de produção de conhecimento, educação e criação de novos setores e programas. Vivemos períodos de dificuldades, outros de imenso otimismo, mas todos foram ocasião de ampliação das redes de cooperação, diálogo, inovação, reorientações e aprimoramento. As pesquisas em história da saúde no Brasil no século XX demonstram o engajamento de profissionais desta instituição em um projeto nacional que, há décadas, visa articular pesquisa, ensino, atenção, desenvolvimento tecnológico e a oferta de produtos e serviços em saúde, promovendo a concepção e implementação de políticas públicas para a população brasileira. 

“(...) porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada. O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando.” Riobaldo, personagem de Grande Sertão Veredas (Guimarães Rosa)

Acredito na necessidade de termos uma Fiocruz forte, integrada e unida para lidar com um contexto nacional e internacional dos mais difíceis em nossa história.  Para isto é necessária a participação de cada um dos trabalhadores desta Instituição, uma construção permanente, baseada no diálogo e no compromisso de todos. A lembrar Riobaldo, isso é o mais importante e bonito do mundo. Da Fiocruz também. 

 

CARTA COMPROMISSO

Conhecimento para a saúde, o desenvolvimento e a cidadania

 

Um projeto de país

 

A Fiocruz é um patrimônio da sociedade brasileira, do qual se orgulham seus trabalhadores, estudantes, usuários dos serviços e o conjunto da população.

Nosso projeto institucional tem como bases: 1) ser uma instituição pública de Estado no campo da ciência, tecnologia e inovação em saúde; 2) contribuir para o fortalecimento e a consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS); 3) servir à sociedade promovendo a saúde, a qualidade de vida e o desenvolvimento em bases socioambientais sustentáveis e; 4) contribuir para reduzir as iniquidades sociais. Essas bases têm como valores centrais a defesa do direito à saúde e da cidadania ampla.

Acreditamos que um projeto de desenvolvimento de país deve ter como propósito o bem estar de todos os cidadãos, o que implica ter como eixo orientador exatamente aquilo que a Fiocruz realiza: ciência, saúde e educação. A atividade de ciência, tecnologia e inovação (CT&I) constitui um pilar essencial do desenvolvimento econômico, social e humano, devendo estar articulada com as necessidades de saúde da população. A geração e o acesso ao conhecimento possuem uma dimensão humana, de cidadania e de autonomia nacional. Um país sem conhecimento científico e tecnológico e sem capacidade para gerar inovações jamais terá soberania para estabelecer políticas públicas capazes de assegurar o acesso universal, integral e equânime em saúde.

Tal projeto de país é indissociável da defesa da democracia e, em nossa história institucional, tem como marco a gestão de Sérgio Arouca na presidência quando se construiu um modelo de gestão baseado na construção coletiva, na análise periódica e contextualizada, na busca por contínuo aperfeiçoamento e no compromisso com a sociedade.

Neste período de 30 anos, a instituição vem buscando fazer frente às mudanças políticas e sociais ocorridas no Brasil e no mundo e à alteração do perfil demográfico e epidemiológico. Procura, ao mesmo tempo, lidar com a transformação extremamente dinâmica do conhecimento científico e das tecnologias na área.

Muitos avanços foram alcançados neste período. A instituição cresceu, diversificou-se e ampliou o seu papel na indução e implantação de políticas nos campos social e científico.  No plano institucional, houve importante renovação no quadro de pessoal, com o ingresso de mais de 3000 servidores na última década, investimentos significativos, ampliação da presença no território nacional, o que nos permite contribuir com todas as dimensões do SUS, de forma descentralizada, visando a redução dos desequilíbrios regionais.

 

Mais do que nunca o Brasil precisa da Fiocruz

Mas vivemos tempos difíceis. Há muito o que fazer, principalmente em um contexto de crise econômica, política e institucional que coloca em risco os direitos sociais conquistados com a Constituição de 1988. É preciso ter em mente que este quadro se reflete negativamente na nossa dinâmica institucional, uma vez que medidas de redução da atuação do Estado e constrição de recursos para a ciência, tecnologia e inovação e para a área social geram retrocessos para nossas ações e comprometem o futuro de nosso país.

Por isso, precisamos estar ainda mais unidos e criar as condições para ampliar a capacidade de resposta frente às necessidades da sociedade e em defesa do SUS. Isto requer atualizar a política institucional em todas as áreas de atuação, fortalecendo-as. Requer a valorização da área de pesquisa, inovando na avaliação e na promoção de ações transversais; a efetiva construção da cadeia de inovação, entendendo-a de forma ampla como a geração de benefícios para a sociedade; fortalecer o papel educacional da Fiocruz, bem como sua importância na comunicação em saúde; promover a apropriação dos conhecimentos gerados seja na forma de produtos, processos ou formulação de políticas públicas coerentes com a missão e os valores institucionais; promover a maior integração de nossas ações nos campos da atenção, promoção e vigilância em saúde; valorizar a diversidade como riqueza institucional e promover ações mais integradas; aperfeiçoar as práticas de gestão visando a máxima eficiência e capacidade de resposta, com transparência, reconhecimento do trabalho das pessoas e melhoria no ambiente e clima organizacionais.

 

A Fiocruz é construção de todos

Desde que aqui ingressei tive a oportunidade de conhecer e contribuir para o projeto institucional, seus valores e suas práticas, acumulando progressivamente atividades de pesquisadora, professora e gestora, dirigindo a Casa de Oswaldo Cruz de 1998 a 2005, exercendo a editoria científica da editora Fiocruz (2006 a 2011), e finalmente como vice-presidente de ensino, informação e comunicação de 2011 até hoje. É meu intento contribuir para que continuemos a construir uma Fiocruz a cada dia mais forte, presente, e comprometida com a vida. Movida por esse entusiasmo e apoiada por companheiros que em diferentes momentos se juntaram a nossa caminhada, decidi me candidatar à presidência da Fiocruz.

Acredito que a próxima gestão deve proporcionar o desenvolvimento integrado das potencialidades da instituição e das pessoas. E o primeiro passo para isso é promover o envolvimento e a participação de todos nesta construção.

 

Trago 10 compromissos para esta caminhada.

É a partir deles que vamos construir nosso programa de gestão. Espero contar com seu apoio e contribuição para aprimorá-lo e construí-lo coletivamente. Os princípios aqui elencados são coerentes com a carta política que aprovamos no VII Congresso Interno, documento amplamente discutido em nossa comunidade a partir da versão elaborada pelo Conselho Deliberativo e que contou com minha ativa contribuição. 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 

Nísia Trindade Lima

 
 
 
 
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